sábado, 28 de junho de 2014

Aborto por quê?

Vamos falar sobre aborto? Considerando o significado biológico, social, cultural e tudo mais?

Você conhece alguém que já fez um aborto? Conhece quem tentou fazer e não conseguiu por qualquer motivo?
Eu conheço.

Agora, você conhece alguém que QUER fazer um aborto? Alguém que QUIS interromper uma gestação?
Porque eu não. 


"NENHUMA pessoa deseja um aborto como alguém que deseja um sorvete num dia de calor. A pessoa que recorre ao aborto o deseja como um ANIMAL, acuado e preso em uma armadilha, deseja roer a própria perna para tentar sobreviver."

É preciso observar que a maternidade compulsória é um dos grandes males da humanidade e não é justo COM NINGUÉM. Nem com a criança que não terá o suporte necessário, nem pra família que terá que abdicar de metas próprias em prol de uma criança com a qual não se tem vínculo emocional.
É horrível e talvez assustador pensar assim, mas é a realidade: não é todo mundo que quer constituir uma família biológica. Não é toda mulher que deseja ser mãe. Não existe isso de senso materno natural. 
Pessoas são pessoas, indivíduos singulares. Se sabemos que até a biologia influencia personalidade e tomada de decisões, imagine o meio cultural. 

Eu, Maiara, sou militante da maternidade ativa. Ofereço orientação gratuita para gestantes que OPTARAM pela gravidez porque acho, sim, que é algo lindo, intenso e mágico. Minha luta para o aborto ser desmitificado e despenalizado é justamente porque é, no mínimo, sádico, alguém passar por um processo tão intenso sem consentimento.

Não, não existe nenhum método contraceptivo sem margem de falhas. (Eu engravidei tomando pílula e usando preservativo - que NÃO furou e estava perfeitamente dentro da validade.)
Não, não existe "nos dias de hoje só engravida quem quer". 
Sim, devemos investir em planejamento familiar, educação sexual e tudo que ajude a mudar o quadro atual, mas criminalizar o aborto APENAS significa autorizar MASSACRE de mulheres. Pobres, na grande maioria. Isso é higienização social, não é política pública.

AINDA QUE trate-se de um caso em que a pessoa não se preveniu mesmo e não estava em uma relação estável, digamos assim, proponho uma reflexão: 
É justo esse feto - que não, não é um bebê em miniatura e eu já vi fetos o suficiente para afirmar com propriedade: é um aglomerado de células, não é um bebêzinho - se transformar em um ser humano que não vai gozar de condições mínimas de dignidade, educação, respeito e carinho? 
Somos mamíferos, necessitamos de calor humano. O bebê nasce e já procura o seio materno para ser acolhido e se acalmar. É justo negarmos isso a um bebê quando podemos interromper esse processo que é traumatizante para todos os envolvidos?

Quando digo traumatizante, estou me referindo à doenças sérias, que geram transtornos e sentenciam famílias.
Sabe depressão pós-parto? Nos países que o aborto não é legalizado, ela acontece em números alarmantes. Porque a mulher vira mãe por imposição social, porque as pessoas esperam que ela seja uma máquina de reprodução e amor, e ela não se sente como acha que deveria se sentir. Fica difícil construir uma sociedade doente e depois reclamar de cenas horrorosas de filhos matando pais e vice-versa. 


Sobre "casos previstos em lei":
Um feto anencéfalo tem pouquíssimas chances de sobreviver. Na melhor das hipóteses, ao nascer, ele poderá ter uma vida com desenvoltura pouco maior à vegetativa, se a anencefalia não for completa. A anencefalia não chega nem a ser uma deficiência: é uma patologia totalmente incompatível com a vida extra-uterina. 
Vamos novamente tentar nos colocar no papel da gestante:
Durante nove meses, passará por um processo intenso, que provavelmente te obrigará a renunciar algumas atividades, também provavelmente sentirá enjoos, dores e desconfortos variados e então, não terá um filho.

Claro que é louvável uma pessoa se propor a uma situação assim, tendo em mente que o processo que gere uma vida seja sagrado. Mas não podemos condenar quem não pensa dessa maneira.
Se for uma pessoa que sempre sonhou com a maternidade e a gravidez então: imaginem quão dolorosa pode ser essa experiência.

Gestações que impliquem em risco de vida para humanos já formados, cidadãos, conscientes e responsáveis pelas próprias atitudes devem receber o mesmo ponto de vista, com o agravante: ao não interromper a gravidez, quem morre é a gestante.
Essa situação deixa perfeitamente claro porque acho irônico - e risível - pessoas que são contra a descriminalização do aborto se denominem como "pró-vida". Porque a favor da vida da gestante com certeza essa pessoa não é.

Nossa sociedade funciona em um sistema patriarcal. Toda pessoa que não se encaixa nos padrões ditados é condenada moralmente. 

Ainda é um grande obstáculo para uma pessoa ir numa delegacia registrar um estupro. Fora o crime sofrido que já é traumatizante por si só, a pessoa precisa encarar o visível julgamento da sociedade por ter se tornado uma vítima. É muito comum que, ao registrar o boletim de ocorrência, a vítima ouça insinuações ou até mesmo afirmações explícitas de que "fez por merecer" sofrer tamanha violência.
Pais e mães expulsam filhos e filhas estuprados de casa. Sim, aqui no brasil. 
Qual é a chance dessa mulher se sentir a vontade para realizar o boletim de ocorrência? 
O próprio governo mesmo estima que apenas 10% dos estupros sejam denunciados
Isso num país que REGISTRA centenas de estupros diários. 
Nos casos de abortamento legal (Aliás, que essa portaria recém-aprovada-e-logo-revogada já mostra certa desnecessidade, porque se já é lei, o S.U.S. TEM QUE ATENDER!), sabemos que a maioria das solicitações são feitas com boletins de ocorrência registrados tardiamente. Porque a mulher violentada já está traumatizada, tem vergonha de contar para a família ou que mais possa ajudar, e não denuncia, e ao descobrir a gestação oriunda do estupro, só após tentar todo tipo de tentativa de aborto caseira perigosa, rende-se ao sistema. 
O Estado violenta quem já é violentado! Parece justo obrigar uma pessoa que já foi agredida sexualmente ter que reviver repetidas vezes o próprio trauma, num processo lamentável, para pôr fim a outra consequência desse trauma? Porque eu não acho que nem mesmo faça sentido.

Outra dúvida: qual seria a coerência em tratar um feto gerado em estupro como menos importante, "menos digno de vida" do que qualquer outro? 
A pessoa que sentiu prazer sexual que gere um filho que não quer ou não pode cuidar, as vítimas de estupro que os abortem? 
Honestamente, nunca entendi a lógica. Já entrevistei até parlamentares e eles também não souberam explicar.
Conclusão? Moralismo. Machismo. 
Vivemos num país que se acha moderno e liberal mas ainda queremos punir mulheres que tenham vida sexual ativa. Seria cômico, se não fosse trágico. 
A mulher que deve parar de transar, então, já que homens sempre vivem fugindo e nem pagam pensão e isso não é contestado ferozmente como é a decisão de interromper uma gravidez. O aborto paterno é aceito, o materno que não.

Ainda que ignorássemos também o que é passar NOVE MESES num processo biológico degradante para todos (Porque o feto vai receber a carga depressiva da mãe e isso vai influenciar toda a personalidade dessa criança, segundo a psicopedagogia), em que o corpo parasitado REPUDIA (Só dar uma volta em lugares que atendem o processo de abortamento legal e observar as mulheres que choram só de encostar/alguém olhar para a barriga dela, ouvir os gritos de "tira isso de mim!" que temos uma noção do quanto NÃO É divertido gestações não consentidas), vamos deixar que crianças sejam encaminhadas à adoção. Como se orfanatos tivessem a menor condição de oferecer estrutura básica para seres humanos em desenvolvimento, como se a sociedade não fosse julgar essa mulher que não nasceu com interesse em ser mãe e colocou o filho biológico para adoção, como se o sistema brasileiro de adoção não fosse burocrático, lento e problemático.

Não, ninguém acha que aborto seja uma opção divertida, muito menos no brasil. 
Não, ninguém está incentivando a transar sem proteção (até porque existem dst's). 
Ninguém odeia bebês fofos. 
As pessoas que lutam a favor do aborto são pessoas muito bem instruídas que simplesmente não querem estimular essa sociedade doente. Justamente porque crianças merecem suporte para se desenvolver que não podemos obrigar ninguém a criar essas crianças, porque o mundo não tem suporte pra isso também.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Teoria Disney +1: Teoria da Cinderela

Já ouviu falar da Teoria Pixar? 
É aquela teoria meio maluca que pega cada detalhe aparentemente sem importância presente em cada filme da produtora e mostra uma maneira deles estarem interligados.
Não faço a menor ideia se ela é real, mas faz sentido.

Disney é da mesma família da Pixar, né. Toda aquela turma que transforma histórias em pura magia e tem a competência de manter atenção de crianças e adultos por quase duas horas.

Explicando o raciocínio, só pra ficar claro, cito então a Mc Mayara que brilha entoando a Teoria da Branca de Neve (apenas me deixem, sou grande fã!):
Por que só ter um se eu posso ter sete?
Sete.
Sete.
Sete.
Sete.
Set... tá, parei.

Quem é responsável por uma geração frustrada ao descobrir que não é princesa? Ao notar que não teria sapatinho de cristal muito menos príncipe encantado para devolvê-lo?

Sim, a Disney.
Em tempos de Malévola fazendo sucesso por aí, começo daí minha teoria:

Certa vez comentei aqui que tem coração que adora aparecer no meu sapato. Percebi, então, que devia explicar melhor a Teoria da Cinderela.

Cinderela é aquela princesa que não era bem princesa, ficou órfã, virou escrava da madrasta e das meio-irmãs igualmente más. Desafiou o sistema, foi escondida pro baile procurar um negão e conquistou o príncipe e tudo mais e no meio dessa aventura perdeu o sapato de cristal bafônico que arranjou com uma fada madrinha. História de diva mesmo.

Acontece que sendo um conto Disney, a história fica toda em cima do sofrimento da mocinha que não tem roupa luxuosa pra ir à um baile real e a paixão instantânea que fez um príncipe carente percorrer todo o reino até reencontrar a donzela pela qual se apaixonou. 
Tudo muito legal, mas foquemos no que torna o enlace possível: o sapatinho. 
Um objeto, mero detalhe. Mero detalhe?

Se não fosse o sapato de cristal provavelmente Cinderela não teria ido ao baile, porque né, suponho que em tempos de monarquia um vestido lyndo ainda não justificava aparecer no casa do rei descalça.
Se não fosse o sapato de cristal perdido na correria de voltar pra casa em tempo provavelmente o príncipe teria descoberto que um lance é um lance, um lance não é um romance, afinal, como ele encontraria a gatinha se não fosse a ideia de ir de casa em casa de desconhecidos até descobrir quem poderia calçar perfeitamente o sapato? 
E também, se não fosse um sapato de cristal repleto de magia, imagino que ele não seria exclusivo da gata, e sim, serviria em outras tantas moças do reino que tivessem numeração parecida e o príncipe acabaria casado com a pessoa errada.

A Teoria da Cinderela é que às vezes estamos tão determinados, focados, cegos de amor ou por qualquer outro motivo, impossibilitados de enxergar uma situação com clareza o suficiente, que não refletimos sobre ela, interpretamos de qualquer maneira e ignoramos, conscientemente ou não, o mais importante.
Citaria até Pequeno Príncipe: o essencial é invisível aos olhos.

Dessa forma, peço: calcem seus sapatinhos. Certifiquem-se de que ele está confortável e que há real importância em calçá-lo.






segunda-feira, 23 de junho de 2014

Me encontre domingo, no Tinder.


Domingo, dia oficial de sentir falta de alguém.

Não sei vocês, mas para mim, viver sempre me pareceu excepcionalmente difícil.
Decisões, inspirações, mudanças inesperadas, traumas, sustos, sonhos. Rotina.

Nunca fui muito de rotina, na verdade. Gosto de iniciar o dia quase em tom de desafio: vai, me surpreenda.
Dizem que tem a ver com meu signo.

Mas sou também grande reforçadora de estereótipos: garota de cidade grande, criada solta, obrigada determinada a seguir seus ideais.

Acordo em dias úteis relativamente cedo - considerando o horário de expediente -, tento não esboçar ~meu estilo radical~ na escolha de roupa, compro um pão de queijo e aproveito para identificar meu humor quando decido se tomo ou não um Toddynho. 

Normalmente, pego um ônibus, o metrô, digo "bom dia" para motoristas e cobradores, mas quase choro se encontro algum conhecido que eu me sinta na obrigação de estender conversa. 

Trabalho e milito. Necessariamente. 
Antes das 18h, decido se vou encontrar algum amigo, resgatar bicho, encantar um novo garçom com minha melancolia simpática após cervejas.

Tudo isso em dias úteis.

Sextas, sábados e/ou feriados costumo buscar diversão. 
De humildes cervejas improvisadas à baladas com open bar, planejadas com meses de antecedência, passando por cinema, parques e viagens. Importa mesmo é eu dar risada, dançar, reclamar da vida perto de quem merece minha confiança.

Aí chega o domingo.
Os jovens que me desculpem, mas sono é fundamental.
Preciso relaxar, fazer um balanço da semana, dar atenção às minhas séries, fazer cafuné nos meus gatos.
Tudo isso que faço sempre correndo ao longo dos dias e nunca consigo finalizar. Então, preciso de um dia para fazer direito. Dormir sem medo do despertador, achar uma nova maneira de lidar com ressaca ou com mau humor dos bichanos residentes, refletir sobre alguma crítica que foi levada a nível pessoal, comer pizza, tomar sorvete, ignorar o ponteiro da balança.

Domingo é dia de acalmar o coração.
Daí chegamos àquela verdade que é facilmente comprovada em uma olhada rápida no Facebook: quase ninguém curte ficar sozinho.

A gente faz carão pra foto, se orgulha da tolerância ao álcool, superestima os próprios talentos, se arrepende - e muito - de decisões afetivas, julga as dos outros, mas a verdade é sempre muito parecida. Tudo na vida é melhor com companhia. Boa companhia, né, por favor.

Disso tudo já sabemos, eu sei, me perdoem por ter repetido.
É que enquanto faço tudo isso dos meus dias, também brinco no Tinder.
Para os leigos ou comprometidos: é um aplicativo de ~paquera~. Você seleciona suas preferências e vai aparecendo na tela candidatos à sua companhia, no melhor estilo catálogo, onde você decide se o marca como interessante ou não. Se ambos vão com a cara do outro, a mágica do amor acontece abre-se uma nova aba onde podem trocar mensagens.

Já deu pra entender, né? 
Lá você pode encontrar o amor da sua vida ou alguém para ter um encontro sexual na mesma hora para nunca mais ver a cara do parceiro. 
De repente, até mesmo as duas coisas - seja com a mesma pessoa ou não.

Após algum tempo usando esse aplicativo, já encontrei de tudo. Mesmo. De stalkers psicopatas em potencial à românticos que queriam já marcar o casamento, passando por dezenas de amigos novos (Um, inclusive, acaba de se mudar para um apartamento novo com a namorada... que conheceu no Tinder. Oun.).

Colecionadora de matchs que sou, as conversas costumam se desenrolar até chegar aos questionamentos recíprocos do quê, afinal, a pessoa está procurando ali.

A verdade é que eu não sei.
To aí.

Mas queria deixar muito claro que existem tipos que NÃO conquistam ninguém - nem pra pedir favor. Considerando isso, fica aqui meu...




Manual de Boas Práticas no Tinder 
- by Maybe


- Escreva algo na bio. Isso já vai adiantar MUITO na decisão da outra pessoa em tentar uma combinação ou não. 

- Fotos aleatórias no exterior: APENAS queria ENTENDER a necessidade. Se a intenção for pagar de cool, interessado em cultura e/ou aventura, fica aqui o feedback pessoal dessa humilde usuária: não tá bom, não. Pelo contrário, me parece que a intenção é expôr que você tem grana e só. Foi mal.

- Frases supostamente de Clarice Lispector, Caio F. e amigos: Tudo bem, sei que falei pra escrever alguma coisa na Bio, mas pior coisa é entrar no Tinder e ficar em dúvida se acessou o Tumblr ou o Pensador por engano. É aplicativo para conhecer pessoas, amigo, não é livro de auto-ajuda.

- Fotos com animais domésticos é certeza de ganhar meu like. Invista!

- Foto forçando músculo sem camisa em frente ao espelho eu NEM sei como te explicar o quanto isso é constrangedor e NADA sexy. E se tu nem mesmo está dentro dos padrões impostos pela ditadura da beleza, me explica essa vontade de reforçá-la????? 

- Número do celular na bio. Se você não consegue enxergar o quanto isso é absurdo, duvido que consiga te explicar. Mas bem superficialmente: se você é irresponsável e sem critério a ponto de espalhar um contato tão pessoal assim por aí para qualquer um apenas não daríamos certo nem pra beber uma cerveja.




Seguindo minhas dicas, já to torcendo pra você me achar por lá (Já fica aí a sugestão de incluírem uma busca, hein, desenvolvedores!).


Sabe como é, to sempre precisada de cafuné e companhia pra passar o domingo. ;)