Crescemos lado a lado como duas raízes que partem da mesma terra, mas desde cedo percebi que a sua sombra sempre pesava sobre o meu broto. O que em mim tentava florescer era logo sufocado por um olhar que nunca se contentava em apenas existir — precisava medir, comparar, diminuir. Não havia espaço seguro: nem no que eu inventava de mim, nem no que eu tentava dividir com você.
Você estava sempre pronta para arrancar a beleza das minhas mãos, como se cada gesto meu fosse uma afronta ao seu território. Se eu criava algo novo, você transformava em motivo de riso. Se eu buscava me aproximar, era recebida com desprezo. Assim, aprendi cedo a duvidar das minhas cores, a desconfiar daquilo que me fazia única.
Você me fez odiar tudo o que eu achava belo em mim quando eu era única. Também odiou quando eu tentei reproduzir o que eu pensava que podia ter sido um orgulho e um elo.
É estranho carregar uma lembrança que arde tanto e, ainda assim, não se apaga. Como se fosse uma cicatriz invisível que, contraditoriamente, não cicatrizou. Não dói todos os dias, mas está cravado demais e até sangra. Às vezes me pergunto se fomos condenadas a andar como espelhos trincados — sempre mostrando uma ao outro um reflexo distorcido, sempre incapazes de reconhecer a inteireza.
Talvez nossas raízes sigam assim: próximas na origem, distantes no toque. Talvez um dia a terra ceda, e possamos crescer sem disputar o sol. Mas enquanto isso não acontece, eu sigo aprendendo a me amar mesmo com as rachaduras que você ajudou a abrir em mim.