segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Outsider.


Ela estava de ressaca. Sempre ela. Cazuza se achava exagerado porque não a conheceu. Com ela tudo tinha que ser ao extremo. Intenso. Sorria demais, chorava demais, sentia demais. Queria demais da vida. Bebia demais, falava demais. Um desses excessos lhe trouxe a atual ressaca. Martini? Sky? Não sabia. Não sabia demais. Mas não negava. Era muito autêntica, muito sincera, muito honesta. Não representava. Sabia, mas não gostava. Nem fazia. Tinha defeitos, é claro. Milhares. Mas nunca tentou negar ou se desculpar. Mas o mundo não aguenta verdades. O mundo não estava preparado para alguém como ela. Ela e toda sua bagagem emocional cheia de verdades, saudades, contradições. O mundo não a queria nem a merecia.


O gato não sabia dos padrões do mundo. Sabia do seu mundo de gato. Com rações, mimos e broncas. Ficava preso no quarto da dona a maior parte do tempo pois outra ocupante da casa tinha alergia. Quando ganhava autorização para passear pela casa, a desmontava. Derrubava porta-retratos e destruía eletrodomésticos. Não permitia que a dona se concentrasse nos estudos, na conversa do msn ou o que quer que fosse. Ele queria brincar. Mas ele é um gato. Ele mordia, arranhava e miava alto. Não entendia brincadeiras, não entendia as broncas que levava. Estava apenas seguindo seu instinto. Instinto de gato. Arteiro, mas leal. Mimado, mas obstinado. Gostava mesmo de correr e pular pelo mundo, namorando e ultrapassando limites. Sendo fiel a ele mesmo. E a quem lhe fazia bem.


Ela estava tendo entender o que sentia, o que se passava. Queria descobrir como a vida dela tinha se enrolado, desenrolado e acabado daquela forma. Torcia para que não tivesse chegado ao fim, ainda que lhe parecesse mais confortável, mais plausível. Queria traduzir para o mundo em que ela nunca se encaixou o que era o desconforto que sentia naquele momento. Enquanto buscava palavras para escrever, descrever e desabafar, o gato pulou no notebook. Escreveu letras aleatórias com a pata, fechou uma janela no msn e a mordeu no dedão do pé.


Ela estava cansada demais. Desmotivada. Estressada. Pegou o bichano pela barriga, meio de qualquer jeito e gritou.

- Por que você é assim, hein? Porque não consegue se ajustar? Pare com isso.


Caiu no choro.

Pegou o gatinho novamente, tentou lhe fazer um afago enquanto ele a arranhava.


- Não para, não. Seja fiel a sua natureza e ao que você acredita. Eu gosto de você, tenho que me adaptar.


E entendeu menos o mundo.

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